Entre os anos de 2015 e 2016 o Brasil vivenciou uma situação até então inédita. O diagnóstico de vários casos de microcefalia ao longo do país, principalmente na região nordeste, acendeu o sinal de alerta e levou a comunidade científica a estudar as possíveis causas do surto. A Dra. Adriana Melo, presidente do IPESQ, deu os primeiros passos no estabelecimento da relação entre o vírus da zika e os casos de microcefalia ao analisar o líquido amniótico de duas mulheres grávidas cujos fetos apresentavam alterações no cérebro durante ultrassonografia morfológica.

O que é o Vírus da Zika?

Este tipo de vírus é transmitido pelos mosquitos Aedes aegypti (mesmo transmissor da dengue e da febre chikungunya) e o Aedes albopictus. Embora tenha ganhado notoriedade no Brasil apenas na ocorrência dos surtos em 2015 e 2016, este vírus teve a sua primeira aparição registrada em 1947. Na ocasião, foi encontrado em macacos da Floresta Zika, em Uganda. Entretanto, somente em 1954 os primeiros casos em seres humanos foram relatados, na Nigéria. O vírus Zika atingiu a Oceania em 2007 e a Polinésia Francesa no ano de 2013. Pouco tempo depois, o Brasil notificou os primeiros casos de Zika vírus em 2015, no Rio Grande do Norte e na Bahia. Atualmente, o vírus já teve a sua presença documentada em cerca de 70 países.

Como é transmitido o vírus?

A principal forma de contágio acontece pela picada do mosquito que, após se alimentar do sangue de alguém contaminado, pode transportar o vírus durante toda a sua vida. Assim, transmite a doença para uma população que não possui anticorpos contra ele.

A fêmea do mosquito deposita seus ovos em recipientes com água, e ao saírem dos ovos, as larvas vivem na água por cerca de uma semana. Depois deste período, tornam-se adultos, prontos para picar as pessoas. A velocidade de reprodução do Aedes aegypti é rápida e o mosquito adulto vive em média 45 dias. Uma vez picado, o indivíduo demora em torno de 3 a 12 dias para o Zika vírus causar sintomas.

Por que o nordeste brasileiro foi a região mais atingida pelo Zika?

A temperatura característica do nordeste é um ponto importante a ser considerado quando observamos a incidência do zika na região. A transmissão do vírus raramente ocorre em temperaturas abaixo dos 16° C, e a temperatura mais propícia para a transmissão é entre 30° e 32° C. Desta forma, é natural que ele se desenvolva preferencialmente em áreas tropicais e subtropicais, como o nordeste brasileiro. Além disso, os estudos estão confirmando que as populações com renda baixa, pouca escolaridade, em condições sanitárias desfavoráveis, incluindo falta de acesso a água corrente e tratada estão mais expostas ao vírus e o risco de microcefalia é maior.

Por que é importante combater o Aedes aegypti?

A fêmea do mosquito busca condições adequadas para depositar os seus ovos (lugar quente e úmido), portanto recipientes que possam acumular água ao ar livre tornam-se o local ideal para o surgimento do vetor. Com rápido desenvolvimento, o embrião leva apenas 48 horas para concluir o seu crescimento. Além  disso, os ovos que carregam o embrião são extremamente resistentes, e podem ser transportados através de longas distâncias por até um ano, até encontrar condições propícias  ao seu desenvolvimento.

É justamente pela resistência, velocidade e facilidade com que se reproduzem que o combate ao Aedes aegypti é difícil. Entre a fase do ovo e a fase adulta, o inseto leva em média 10 dias, e acasalam já no primeiro ou segundo dia da fase adulta. Depois disso, as fêmeas se alimentam de sangue, essencial para o desenvolvimento dos ovos, e com isso reiniciam o ciclo, gerando novos mosquitos.

Por isso, é importante inviabilizar locais propícios ao desenvolvimento do vetor, não deixando água parada exposta ao ar livre, lavando recipientes usados na alimentação de animais, por exemplo, e enchendo com terra os vasos de plantas, além de outras medidas importantes já amplamente difundidas nas campanhas de combate ao mosquito já difundidas no Brasil.

Outras maneiras de transmissão

Uma pessoa já infectada pelo Zika, pode ser vetor do vírus, e assim transmiti-lo para outros indivíduos. Uma gestante, por exemplo, pode transmitir o Zika para o feto durante a gravidez, o que está relacionado diretamente à ocorrência da microcefalia e de outros defeitos cerebrais graves, além de alterações articulares, oculares e outras malformações.

Além do contágio da mãe para o(a) filho(a) durante o período de gestação, o Zika vírus pode ser transmitido através de relação sexual de uma pessoa com Zika para os seus parceiros ou parceiras, mesmo que a pessoa infectada não apresente os sintomas da doença.

Por isso, pessoas que pretendem ter filhos, e que vivam em regiões afetadas pela transmissão do Zika, devem buscar orientação médica sobre medidas preventivas no pré e pós-concepção. O uso de preservativo está recomendado durante toda a gravidez para evitar a forma sexual de transmissão. Esse cuidado é relevante porque estudos demonstraram que uns dos fluidos que o vírus persiste mais tempo vivo é o sêmen.

Ainda, existe outra possibilidade de transmissão, por transfusão sanguínea e outros derivados. Inclusive com o reporte de alguns casos no Brasil, onde a transmissão ocorreu provavelmente por esta via.

Microcefalia e Vírus Zika

Em outubro de 2015, a partir de 26 casos de microcefalia que foram notificados à Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, iniciou-se um trabalho nacional de vigilância em investigação desses casos, tendo em vista que, até então, os casos de microcefalia eram muito incomuns, de baixa incidência. A nota chamava a atenção para o fato das gestantes relatarem historia de rash cutâneo durante a gestação. Nenhuma menção foi feita ao Zika Vírus. Ao mesmo tempo, Dra Adriana Melo começava a observar na sua clínica privada e no serviço publico, fetos com danos cerebrais graves, que não estavam relacionados a nenhuma doença descrita até aquele momento. Nesse instante Conceição Alcântara, foi fundamental. Gravida pela primeira vez, planejou todos os detalhes, entretanto no mês de junho de 2016 apresentou exantema. Foi durante a ultrassonografia morfológica de seu feto que Dra. Adriana percebeu alterações atípicas no cérebro. Uma segunda paciente, Jéssica, oriunda do serviço público também referia os mesmo sintomas. A partir da análise do líquido amniótico dessas duas mulheres, foi detectada a presença do zika vírus, e assim estabelecida pela primeira vez a relação entre zika e microcefalia. Em Janeiro de 2016 o IPESQ publicou em revista cientifica internacional de alto impacto os dois primeiros casos de Zika congênita do mundo. Em 2017 este artigo foi o mais citado da história da revista e Dra. Adriana Melo recebeu um prêmio no Congresso Internacional de Viena, na Áustria.

Após a notificação destes casos iniciais, o que se seguiu foi a identificação de mais e mais casos, desta vez, indo além de pernambuco, atingindo diversos estados, principalmente no nordeste do país. A partir daí surgiu a crescente preocupação com a possível correlação desses casos com a ocorrência do surto de zika que atingiu a região no início do mesmo ano.

A partir daí, intensos esforços da comunidade científica nacional e internacional, confirmaram aquilo que a Dra. Adriana já havia constatado em suas análises. Desta maneira, foi estabelecida de forma concreta a relação causal para a ocorrência da microcefalia em decorrência da infecção pelo vírus da zika.